Inovar em sectores tradicionaisInovar em sectores tradicionais

Vestuário, calçado e lazer são três sectores tradicionais da economia portuguesa. Mas o carimbo não significa que a inovação esteja afastada destas actividades.

Joaquim Moreira renega os 58 anos que o bilhete de identidade diz que tem. "Eu tenho é 30 anos", lança, numa conversa ao telefone com o Negócios. "Mas está aqui uma funcionária minha a dizer que, na verdade, eu tenho é 30 anos em cada perna", brinca o empresário, dono da Felmini e um homem bem-disposto que tem uma palavra apenas para resumir isso de ter sucesso -"inovar". "Só com coisas novas é que vamos lá."

A Felmini, empresa de calçado a caminho dos 36 anos de actividade revolucionou o mundo das botas para senhora com um processo de fabrico muito particular, que permite ter múltiplas cores numa mesma linha de produção.

À semelhança da Felmini, não faltam exemplos de empresas de sectores tradicionais que inovam a oferta aplicando a tecnologia, a investigação ou a imaginação. Só muda a forma: por um lado, há quem crie empresas novas para inovar nos sectores tradicionais; por outro lado, há quem tenha empresas aparentemente tradicionais e esteja a inovar por via dos métodos de produção e da investigação.

Certo é que a inovação não se resume à vanguarda do mundo dos computadores e afins. Está no têxtil, no calçado, na restauração e está onde nem sempre aprendemos a percepcioná-la. Basta olhar com atenção e o acto de olhar inclui os sectores mais tradicionais do país.

Fazer dos pés uma tela colorida

Joaquim Moreira é um homem ocupado. As vendas vão bem e há que trabalhar. A sua Felmini facturou oito milhões de euros no ano passado e espera facturar 10 milhões em 2009.

Na base de tanta agitação e de um volume de negócios a subir, anda sobretudo uma inovação que esta empresa implementou há pouco mais de um ano. Depois de uma série de conversas internas, a que se sucedeu um período de testes ao nível dos métodos de produção, a Felmini conseguiu desenvolver um sistema de produção em que consegue ter várias cores diferentes numa mesma linha de produção de botas para senhora (o calçado feminino é o "core" do negócio).

"Conseguimos ter cerca de 20 cores diferentes na mesma linha de produção. Produzimos cerca de 1.100 a 1.200 botas por dia, todas têm um acabamento personalizado e é possível ter uma das tais 20 cores distintas. Ou seja, cada produto é único devido ao acabamento e há uma etiqueta no produto final a dizer isso ao cliente", conta Joaquim Moreira.
A Felmini leva mais de três décadas de vida, está num sector a que o senso comum chama muitas vezes "tradicional", mas tem um dono com um lema muito simples. "Só com coisas novas é que vamos lá", sublinha Joaquim Moreira, a justificar o porquê de procurar esta solução para ter botas de múltiplas cores e financeiramente viáveis do ponto de vista produtivo.

O leque cromático que o novo método de produção assegura é extenso. "Há de tudo um pouco, desde botas com tom gasto, a pares amarelos, vermelhos e violeta, entre outros", enuncia Joaquim Moreira. Os preços variam entre 50 e 55 euros e os maiores consumidores estão lá fora. Franca e Itália estão entre os mercados onde o produto entrou com mais sucesso, a que se juntam Alemanha e Japão, entre outros.

Joaquim Moreira diz que há novidades a caminho para voltar a inovar neste universo do "calçado para senhora jovem" (é assim que o empresário define o seu mercado), mas o ponto de partida será o mesmo. "Inovar sempre e constantemente. Só assim é que seremos diferentes", remata o empresário, um homem que faz dos pés femininos uma tela colorida.

Fonte: Jornal de Negócios, 02.Jul.09